Tanto o designer como o artista trabalham a forma, e esta para um e para o outro adquire funções, e responsabilidades diferentes.
Apesar do trabalho de um e do outro terem intuitos distintos, não quer dizer que não se possam contaminar um ao outro, no processo e no resultado final, pois acreditamos que nessa expansão de processos e de partilha de técnicas e métodos, possa resultar um trabalho mais rico e diverso em cada um dos campos.
Devemos apreciar na sua medida o trabalho de uns e dos outros, sem desprezar aquilo que os diferencia como se de uma lacuna se tratasse. Porque não o é. Trata-se de responder ao que a disciplina requer que se responda. Tanto artista como designer tem responsabilidades a responder, mas a forma como pretendem responder às mesmas deve sempre ser um trabalho único e específico ao trabalho/projeto que necessita/procura ser desenvolvido.
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O Ofício Como Condicionante
O profissional, tanto de arte quanto de design, é definido pelo ofício, que por norma é agrupado a um conjunto de técnicas, ferramentas e abordagens próprias. No caso do design, esse ofício distingue-se por ser uma prática racional, objetiva e metódica, destinada a comunicar de forma clara e atrativa. A linguagem de cada disciplina, reforçada por terminologias e abordagens específicas, também contribui para essa ideia, moldando a percepção e as expectativas em relação ao que significa “fazer design” ou “fazer arte”.
Embora seja essencial entender e caracterizar a prática do design, é igualmente importante reconhecer que o papel do designer exige uma adaptabilidade que vá além de um conjunto rígido de técnicas. Para que o design realmente responda às necessidades comunicacionais dos produtos, o designer deve adotar uma postura flexível, variando linguagens e processos de acordo com o propósito de cada projeto.
O ofício do designer é portanto definido pelas mensagens únicas que constrói e pela capacidade de interpretar contextos e adotar formas que dêem resposta aos mesmos, e não por uma concepção genérica do que significa “construir mensagens”.
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Mutabilidade do Significado
Ao longo dos séculos objetos de design que um dia serviram um propósito funcional específico, podem perder sua utilidade original e assumir um papel decorativo, contemplativo ou até simbólico.
A maneira como percebemos objetos e práticas estéticas muda continuamente ao longo do tempo, influenciada por contextos históricos e mudanças nos valores sociais. Assim, o que consideramos “arte” ou “design” são definições mutáveis, moldadas pela função e pelo significado que atribuímos aos objetos com base nas necessidades e visões de cada época.
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Designer Como Artista
O designer, ao posicionar-se como artista, desloca-se além das noções de funcionalidade e objetividade, para que a expressão pessoal, a subjetividade e a exploração criativa ganhem espaço para serem trabalhadas. Nesta atuação, são questionadas as normas estéticas e práticas que geralmente delimitam o design, para ir além da função utilitária e criar algo mais aberto à interpretação, ao simbolismo e ao impacto emocional. Ao trabalhar com liberdade artística, o designer cria espaços de experimentação e inovação onde a expressão visual é um fim em si mesma, ou mesmo um meio de provocar novas perspectivas e conversas. Essa fusão entre design e arte permite ao designer ocupar um lugar de expressão autoral e subjetiva que enriquece tanto sua prática quanto a experiência do público.
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Artista Como Designer
O artista, ao posicionar-se como designer, transforma o processo criativo numa prática de partilha e de diálogo. As suas obras deixam de ser exclusivamente expressões autorais e passam a integrar preocupações como a funcionalidade, utilidade e interação de modo a que estas desempenhem um papel ativo, interagindo com o público e contribuindo para um propósito que vai além da contemplação. Esse novo posicionamento do artista implica uma adaptação, na qual ele não abandona sua visão criativa, mas expande-a para abarcar a função e o impacto que sua obra terá sobre aqueles que a experienciam. O artista como designer valoriza a comunicação e a acessibilidade, adaptando sua linguagem visual e conceitual para dialogar com o público de forma mais direta e inclusiva.
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Territórios de Partilha
A linha que separa o design das outras disciplinas – da ciência à tecnologia, das humanidades à engenharia, da psicologia ao meio ambiente – não serve como barreira, mas como um conjunto de pontos de conexão e colaboração.
Em vez de impor uma solução “pronta”, o design trabalha para integrar contribuições diversas, procurando por formas mais inclusivas, éticas e inovadoras de abordar questões atuais.
Esses territórios interdisciplinares transformam o design numa prática social e cultural, em que cada projeto é uma oportunidade de colaboração e aprendizagem. O design torna-se uma linguagem fluída, adaptável, que não pertence a uma única disciplina, mas que se transforma e cresce na fusão de ideias e métodos de outros campos. A partir dessas conexões, o design expande o seu impacto, não apenas criando soluções, mas também construindo pontes entre conhecimento, pessoas e áreas de atuação.
Ao longo deste manifesto, exploramos como a prática do design pode se expandir e reinventar, adotando posturas mais fluidas e menos restritivas, seja ao incorporar a expressão subjetiva da arte, a funcionalidade do ofício, ou a conexão com outros campos do conhecimento.
Ao abraçar esta visão, o design, em colaboração com a arte e outras disciplinas, torna-se um campo essencialmente adaptável, capaz de responder aos desafios do presente e de antecipar as necessidades do futuro. Esse novo design não é definido apenas pelo que cria, mas pela capacidade de integrar perspectivas, de conectar pessoas e de construir um mundo mais inclusivo, criativo e interligado.