Design para lembrar

O design deve preservar e transmitir memórias, não apagá-las. Pela a sua natureza, o design molda a nossa realidade e define a nossa experiência. No entanto, na era digital, a memória corre o risco de esquecimento. Este manifesto surge como uma declaração de que o design não é um agente de esquecimento, mas sim uma força de resistência e preservação.

  • O design contra o esquecimento

    Hoje em dia vivemos numa era em que a memória corre o risco de ser esquecida à velocidade do digital. O design encontra-se ameaçado pela a desatualização do hardware e do software, à instabilidade das plataformas e à natureza passageira das imagens e dos dados, levando assim ao esquecimento. No entanto, o mesmo design, embora esteja imerso na mudança constante, pode igualmente servir de resistência a ela. Por meios de formas, sistemas e interfaces, o design cria espaços de memória coletiva, onde imagens, símbolos e objetos redesenhados se tornam atos de resistência ao esquecimento.

  • O design pela permanência

    O mercado tem silenciado cada vez mais a origem do design e manipulando-o com os algoritmos e tendências. Pelo contrário, ele nasceu das mãos, dos gestos e das necessidades humanas. O design deve criar objetos e sistemas que resistam ao tempo, contrariando a lógica da “sociedade descartável”. Um bom design é duradouro, quando as tipografias, os símbolos e os sistemas visuais resistem ao tempo, eles acabam  por carregar o peso da história e o sentimento de comunidade. A memória de um povo não deve ser ditada pelos algoritmos ou pelas tendências globais. O design é feito com as pessoas e não sobre elas, torna-se assim um veículo para que as comunidades se lembrem de si próprias.

  • O novo design deve dialogar com o design do passado

    O design deve manter um diálogo entre o presente e passado, não para copiar e imitar a forma sem o princípio prévio mas para compreender e empreender os princípios para criar novos design inovadores e com um significado duradouro. Da tradição à tecnologia, este diálogo consciente entre as várias fases da humanidade é que constrói a nossa identidade e assegura a continuidade cultural. A inovação só é verdadeira quando reconhece as suas origens

  • O design como uma resistência cultural

    O design é uma resistência cultural que combate a pressão uniformizadora do globalismo estético. Não nos conformamos com a monocultura das plataformas nem com obediência cega a templates que silenciam a riqueza da identidade e das narrativas. Por isso devemos resgatar e revalorizar as metodologias, os ofícios e as linguagens visuais, assumindo um regionalismo crítico. Defendendo a memória contra a uniformização imposta pelo mercado global.

  • O design para educar

    O design não é apenas formas ou funções, mas uma forma de ensinar, inspirar e imortalizar histórias. Enquanto designers somos transmissores de conhecimento mesmo por muitas vezes através de uma comunicação sutil e não-verbal mas com um impacto bastante significativo. Cada projeto é uma oportunidade irrecusável de transmitir conhecimento, história e significado. Um cartaz, uma interface digital ou um espaço urbano podem conter narrativas que atravessam gerações. É o nosso dever ético usar os nossos conhecimentos de forma consciente e interventiva, já que temos uma responsabilidade inquestionável na construção e na preservação da identidade cultural coletiva.

O Design é memória, é um ato de resistência e é um meio ético para preservação cultural. A memória, na era digital, corre o risco de esquecimento. Face a esta ameaça que molda a nossa realidade, este manifesto não é um lamento, é a nossa voz erguida contra o silêncio do esquecimento.

Caldas da Rainha, 03 Novembro 2025
  • Autores

  • Mariana Mestre
  • Marta Carola