DESIGN 101
Como ser um bom designer ou pelo menos não morrer a tentar

  • Esquece tudo o que viste até agora. Qual é que foi a última coisa que viste no Instagram? Ou nas publicidades da televisão?? Ou lembras-te do significado da última palavra que tiveste de ir pesquisar?

    Isto ou te parece a sugestão mais fácil de concretizar porque já viste tanta coisa que não memorizaste nada ou a mais difícil porque és tão bombardeado por imagens que parece absurdo sequer ouvir isto.
    Mas aposto que não te lembras…. É exatamente isso que estamos a falar… das duas uma, ou somos todos burros, ou estamos a fazer alguma coisa mal. Será que a informação está mal apresentada ao mundo? Será que somos nós que não sabemos selecionar a informação certa?
    Ou é a nossa incapacidade de controlar esta vontade de consumir tudo e de ver tudo, que acaba por fazer com que tudo seja só mais alguma coisa que vimos e não nos lembramos do quê?
    Honestamente não sei, se soubesse não estaria a perguntar, mas fica aqui esta reflexão filosófica para quem não tem mais nada que fazer do que estar a ler isto e pensar sobre o mesmo.

  • Puxa pela criatividade

    Mas como? se parece que já tudo foi feito? se não é outra pessoa, é a inteligência artificial e todos os segundos 61,400 imagens novas são produzidas. Achas que a tua vai-se destacar de todas as outras? Pensa outra vez.
    Tu não és original, no máximo tentas ser… assim como todos os outros artistas e designers. Tudo o que já fizeste provavelmente vem de coisas que já viste. É difícil aceitar isto, não é? Bem-vindo ao mundo artístico.
    A boa noticia é que, é sim possível ser original, afinal todo o trabalho que viste tem de vir de algum lado, mas é difícil e cansativo (como a faculdade, e como o emprego ou como entornar um café e ter de pedir outro). O nosso cérebro pequenino (que nem trabalha a todo o gás) está completamente cheio de pequenas coisas que nós lhe damos a comer, e por isso é difícil sentir a pressão que temos de criar algo novo e que temos de ser completamente diferentes, quando para alem de estarmos completamente exaustos criativamente, não nos sentimos capazes de ser originais devido a tudo o que foi feito antes. (eu sei, somos todos uma desilusão, mas não desanimem porque a vida continua).

  • Para de ser um procrastinador e trabalha alguma coisa…

    Para de te refugiar na “fase das referências e do conceito” como desculpa para injetar imagens desnecessárias no cérebro. Contra mim falo, mas consumimos tanto, tanto que ficamos gordos e não conseguimos acompanhar a produção… ou será que conseguimos? Temos de ver isto de outra maneira. Está na hora de sair da nossa pequena caixinha e entender que a produção de imagens, de publicidade, está sim a acompanhar a nossa fome de consumir, talvez até mesmo a superar, com todo o propósito de nos engordar mais para nos comer vivos depois. É normal, se existe procura então tem de existir uma maior apelatividade do que se vende…. Ou será que é o contrário? (sendo que temos uma quantidade enorme de ideias atraentes a serem expostas então é normal que se queira comprar mais e que se alimente o desejo de querer coisas).
    Sejam arrogantes, utilizem essa fome para alimentar o ego (não tanto para rebaixar os outros com a nossa pança, mas para querer ser melhor).
    Devido a termos essa competição de ideias expostas e de estarmos sempre a ser bombardeados por elas, faz com que seja extremamente difícil criar algo novo, atraente e que funcione.
    No meio de tanta informação e de tantas ideias que são trabalhadas para se destacar, nenhuma se destaca, não que a maneira como seja apresentada seja má (opa muita é, temos deixar de ter a mania que somos todos designers e artistas e que somos os maiores da nossa aldeia), mas porque já estamos tão habituados a consumir e consumimos tanta coisa que existe pouca coisa que seja memorável e que acabe por se destacar. Então para quem cria e para quem faz design fica muito difícil darmos destaque/realce a uma ideia, produto ou causa.
    É difícil criar ago novo, esteticamente agradável e que seja funcional.
    Por outro lado, se resultar, resultou e apesar de difícil, sabemos que se der resultado então somos bons no que estamos a fazer… Os maiores da nossa aldeia.

  • Já dizia o meu pai: “Quantidade não é qualidade.” Queres tentar pôr isso à prova?

    Parecemos uma fábrica da shein… um bando enorme de pessoas desconhecidas a produzir conteúdo sem fim para que outros tentem apreciar. Mas isso levanta questões, (assim como as fábricas da shein). Com mais pessoas a produzir, é provável que haja mais talento/qualidade, no entanto, no meio de tudo, será que comemos cenouras suficientes em mais novos, para encontrarmos este talento?

  • Assume a responsabilidade. É possível que o design esteja a morrer e tu fazes parte disso.

    Se estudas design, sejas amador ou profissional sabes que o design surgiu como resposta a um problema, e que o nosso trabalho todos os dias é resolver essas questões. Pores conteúdo sem qualidade no mundo, que aqui entre nós, é a maior parte faz com que as poucas pessoas que valorizam a nossa profissão a valorizem ainda menos. Se não queres passar o resto da tua vida a ouvir que o teu futuro é ser caixa de supermercado (sem preconceito, são trabalhadores essenciais na nossa sociedade) sugiro fortemente que penses duas vezes antes de pores mais tralha visual no mundo.

Se calhar és só um universitário de primeiro ano a estudar design que nem sabe bem o que fazer da vida, mas sempre me disseram que se educa desde novos. Ou então não é esse o caso e tens anos de experiência e achas isto tudo que estou a dizer um grande disparate. Seja como for, não chores e não tenhas medo que não está tudo perdido. Podemos sempre fazer alguma coisa para contrariar isto. Pensa antes de produzir e antes de consumir. A esperança é a última a morrer e felizmente (ou infelizmente) eu estou a depositar a minha esperança em ti. Sem pressão, tu és mais forte e no fim vais vencer.

Caldas da Rainha, 17 Novembro 2024
  • Autores

  • Rita Caires
  • Tomás Sousa