Design Afetivo
Por um design com factor humano

Vivemos emaranhados num sistema capitalista, preconceituoso e injusto que nos arrasta a qualquer custo, em direção à seta insaciável de um “desenvolvimento” qualquer que chega a poucos, através do sacrificio de muitos. O design, enquanto ferramenta de representação e de criação de realidades, tem sido uma arma utilizada por este sistema para nos alienar e iludir em necessidades e desejos que não nos pertencem, usando as pessoas como meios para atingir fins estatisticos de crescimento económico. Nós, Designers de comunicação, recusamo-nos a utilizar os nossos talentos para alimentar uma máquina de abuso e exploração. É urgente repensar os objetivos da prática do design. É urgente um design afetivo, centrado na humanidade, preocupado com o limite dos recursos emocionais, sociológicos e planetários e que tenha como fim último melhorar as condições de vida dos indivíduos que o consomem, em vez de acrescentar umas centésimas numéricas ao PIB.

  • Um Design onde todes caibam

    São muitas as imagens que inundam as ruas e muito poucas aquelas que conseguem representar com justiça e dignidade as vastas expressões humanas com as quais se propõem interagir. Queremos um Design socialmente responsável, capaz de se desvincular da herança patriarcal e colonialista onde estamos mergulhados e elevar as formas de representação a um patamar pedagógico, inclusivo e diverso. É urgente deixar no passado as escolhas de representação estereotipicas que perpetuam narrativas normativas e castrantes para todos aqueles que não se revejam nas mesmas.

  • O espaço público é das pessoas

    As telas digitais estão cada vez mais brilhantes, roubando o sono aos moradores de zonas comerciais das cidades. Os mupies já invadem paragens de autocarro,tirando lhes os bancos de descanso e de espera para que possam ser renovados em versões mais fantásticas e berrantes. Estamos cansadas. Cansadas do bombardeamento publicitário que nos é imposto, que nos satura os dias e as noites, que nos retira o acesso às nossas próprias cidades. Propomos um novo ramo do design que se preocupe exclusivamente com o reequilíbrio visual nas ruas, cujo foco seja proporcionar momentos de vazio, usufruto do espaço público sem consumo forçado de conteúdo comercial.

  • Design é democrático

    Criar uma imagem é propor uma realidade, coloca-la na rua em larga escala é oferece la como uma hipótese de realidade também a quem por ela passa. Como seria se se abrisse espaço para um design educativo, empoderador e anti-comercial, cujo foco fosse dar voz às comunidades afetas a cada local e que permitisse estabelecer pontes entre as pessoas em vez de estabelecer caminhos para produtos ou serviços?

  • O Designer é um agente político

    Fazer Design é oferecer poder de impacto, é oferecer credibilidade a quem beneficia do nosso serviço. Por este motivo, jamais desenharemos para empresas, entidades e pessoas que ativamente ou passivamente ponham em causa direitos humanos fundamentais.

  • O Design tem limites

    Não podemos desvincular a prática do design dos limites do mundo fisico. No contexto de uma crise climática global, é incontornável o compromisso sério e urgente na busca de soluções que tenham em conta os escassos recursos planetários disponíveis, repensando os materiais que utilizamos e o tipo de produtos que promovemos. Para além da consciencialização para a crise climática é necessário implementar novas estratégias que consigam minimizar o impacto ambiental.

Assinamos este manifesto, com o compromisso de estabelecer uma prática de design assente no afeto pela justiça e pela humanidade, pelo que usaremos os nossos talentos para um fim que nunca prejudique o fator humano. Para nós é fulcral que consigamos promover ativamente uma melhor qualidade de vida para as pessoas que interajam com o nosso trabalho.

Caldas da Rainha , 31 Outubro 2024
  • Autores

  • Maria Luís Resende
  • Maria Antunes